Acabou. Conclui ao abrir a janela em um dia chuvoso de verão. Em um dia triste, com meu coração mais triste que o dia, minha alma se partiu como um vaso vazio que escapa das mãos descuidadas de alguém. Mas minha alma já não chora. E no meu coração, dividido em dois, as duas metades gritam. Mas por pouco tempo ainda vão gritar, penso assim ao fechar a mala. Porque chega uma hora em que arrumar a mala é menos dolorido do que continuar vivendo ao lado de algum alguém. E falo assim, algum alguém, tão anonimamente, porque não me interessa mais quem foi esse alguém e nem importa quantos sorrisos me deu, e nem quantas lágrimas calaram. O que importa é que acabou e os cacos de minha alma que deslizaram das suas mãos estão agora na mala. Acabou. Conclui ao bater a porta da casa logo atrás de mim.
Sem sorte, nem norte guardo madrugadas transbordando solidão. Mas com o coração na mala o peso do peito diminui. E cada vez fico mais longe de voltar. Há um fantasma em cada esquina dessa rua e o som da chuva chega a ser sincero, como se cantasse uma tristeza com os pingos caindo ritmados na calçada. Pedestres sem reação olhando a vida como quem olha o nada. Escadarias de igrejas sujas, com os restos de pessoas como eu, que tiveram um fim recente e ainda não souberam se adaptar. Penso na vida como um só quarteirão. Estático e infinito. Em algumas esquinas encontro, e na outra já perdi outra vez. E eu rodo e rodo em volta desse quarteirão com o coração na mala, que cada vez vai ficando mais pesada. Será que viver é mesmo assim? Apenas segurar o coração nas mãos enquanto tudo roda e se perde em cada curva? Já dobrei tantas vezes essas mesmas esquinas. Sempre tão igual. A vida repete sempre a mesma cena. Primeiro procuro um emprego, um apartamento, uma coisa além do tédio pra matar o tempo, e se ainda assim me sobrar tempo, procuro algum amor. E se não encontrar, eu invento. Porque, afinal, tem alguém no mundo que sabe realmente o que ele é? Então vou chamar de amor àquilo que eu quiser. E escolhi algum alguém para amar, porque há muito tempo atrás alguém me disse que era necessário. E no começo nem eu poderia imaginar tanta beleza. Repetia seu nome quando você não estava perto. E nas escadarias desse quarteirão via seu rosto pintado. Em cada canto, em cada parte, em cada centímetro dessa vida. E procurava seu cheiro no meu corpo. E você vinha. Cada vez mais perto do meu peito. Até que veio o dia em que eu finalmente abri meu peito e lhe entreguei meu coração, você pegou com cuidado e fez questão de guardar. Mas magia dura pouco, e meu olhar tão preso ao teu, não sabia mais enxergar sozinho, e tudo aquilo que um dia eu vi, não pôde mais ser observado. Pois você chegou à esquina seguinte. E esquina é morte certa. Meu coração, assim como minha alma, deslizando tão suavemente das tuas mãos. Junto os cacos. Coração na mala. Para nunca mais.
Nunca mais? Essa coisa existe mesmo? Nunca mais até a próxima esquina. E aí é pra sempre até a seguinte. Até perder a magia, ou até perceber que essa porra de magia do amor que falam é só o caminho entre uma esquina e outra. Calçada é só caminho. Esquina é sempre morte. É essa teoria da vida como um só quarteirão. Demorei mais até chegar nesse cruzamento que me encontro agora. Rolava boba nos braços apressados. Cantava louca uma canção apaixonada. Ia gritando de olhos fechados, sem ver a outra rua, logo ali. Eu ia cantando pra você, enquanto meu coração deslizava da sua mão. Eu dizia ao pé do seu ouvido. Eu gritava pra quem quisesse ouvir. E não venha me dizer que não gostava. Essa mentira da magia do amor é o melhor de todo quarteirão. A gente vai desvairadamente gritando, repetindo, sem saber que um dia a magia acaba. Gostava tanto de você. Repito ainda. Sem medo. Gostava tanto de você...
Enquanto andamos em linha reta parece que a magia não tem fim. Aí vem a curva. A magia segue reto e a gente dobra, porque a vida manda a gente dobrar. Aliás, nem sei se é a vida quem manda. Deve ser alguma outra coisa. Não acredito em Deus e bobagens assim, mas deve ter alguma força maior que faz a gente virar quando chega à esquina. Porque a vida não pode ser só isso. Viver não deve ser apenas esse trabalho duro. Espero que não. Mas não temos tempo, já dobramos a nova esquina. Aquela rua acabou. Agora é essa nova rua, com loucos, tolos, insanos que ainda cantam amores. Eu não quero mais essas esquinas. Não consigo mais contar quantas mortes vivi. Chega de magias que acabam antes do fim da dança. Sempre essa sensação de quem errou a porta do sentimento. Desculpa, mas a vida não deve ser só essa coisa de segurar a barra. Não deve ser apenas sobreviver. Foi só mais um engano. Quantas vezes já dobrei essas esquinas? Será só mais um engano? Procuro alguém. Alguém que não seja engano. Me despedaço em poeira nessa esquina a procura de algo que não seja morte. Peço esmola nesse cruzamento. Mas não quero dinheiro, quero apenas algo pra matar essa sede. Largue tudo nessa esquina, atravessemos a rua pra outro quarteirão. Sem parar, sem dobrar. Mas os loucos só cantam amores que morrem daqui a pouco e não ouvem. Eu quero algo que não seja engano. Todos desaprenderam o jeito. Não conseguem ver. Só seguem em frente e dobram quando mandam. Dobram e dão de cara com a morte. Eu não quero isso. Uma esquina e acabou. Outra esquina e acabou.
Acabou. Conclui um segundo antes de puxar o gatilho. Um segundo antes de chegar à outra esquina. Esquina sempre é morte.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Não é amor em Buenos Aires
“Num deserto de almas também desertas.
uma alma especial reconhece de imediato a outra”
(Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)
Início de tarde, e o sol refletia em cada centímetro daquela praça. Mas não fazia calor. Um vento vinha rasgando a movimentação naquela cidade e arrepiava minha pele cada vez que batia um pouco mais forte. A praça estava absurdamente cheia e eu não sabia exatamente por quê. Depois fui descobrir que aquele era o dia em que as mães iam chorar pelos filhos mortos na ditadura. Quanto tempo faz desde a ditadura argentina? Uns quarenta anos. Acho que tem mágoas que a gente não supera, mesmo. Só aprende a conviver com elas. Aliás, será que tem alguma mágoa que a gente supera? Tristeza é diferente. Tristeza a gente vive todo dia, e supera todo dia. Mágoa é outra coisa. É dentro. Mágoa machuca a alma, tristeza machuca a pele e sangra. Mágoa não sangra, por isso fica trancada lá dentro e não cura. Pele nasce de novo; a alma não.
E foi aí perdido em mágoas que o vento bateu na minha pele levando as tristezas embora e enxaguando as lágrimas, que minha vista deixou de ficar turva e eu pude vê-la. Acho que não havia nada de muito especial nela. Olhos escuros, assim como o seu cabelo e a pele branca, quase pálida. E como naquele conto do Caio, duas almas especiais se reconhecem de imediato em um deserto de almas também desertas. Mas as almas não falam, por isso não levantei do meu banco pra tentar me aproximar. Só fiquei observando o jeito como ela não tirava as mãos do bolso e fotografava cada centímetro daquela praça com os olhos. Às vezes ela se sentava e tirava um pedaço de papel e uma caneta do bolso e começava a desenhar. Percebi como seus olhos às vezes procuravam os meus, e ela olhava rapidamente pra mim e botava-se novamente a traçar linhas naquele papel. O lápis se movia levemente no papel como se fosse uma continuação dos seus dedos. E seguiu assim por uma hora com seus olhos me procurando. Até que começou a escurecer, as loucas corrompidas de mágoas foram embora. E eu voltei pro meu quarto de hotel.
Preso noite adentro nesse quarto estranho. A madrugada vai caindo com gosto de angústia estampado na cara do céu. Nessa cidade estranha que me faz lembrar os amores que deixei. Só me traz saudade. Não sei como posso sentir saudades no meio de tanta gente. Quanta gente nessa cidade, quanta gente nessas casas, nas ruas, nas praças, nos becos. Quantos pássaros tão soltos pelos ares. Bons ares de Buenos Aires. Tem alguém que me persegue pelos sonhos, imagens de ruas que não conheço. Perco-me nas ruas como me perco aqui dentro em saudades.
Saio para rua noite adentro. Procuro um rosto amigo que possa confortar. Mas não conheço ninguém aqui. Quero só um rosto, então. Um semblante desconhecido que eu possa chamar de meu por uma noite. Nem uma noite, apenas algumas horas. Perco-me em bares estranhos, e algumas pessoas vêm me perguntar se eu quero ajuda. Será que está tão estampada na minha cara, a minha perdição? Não, não quero ajuda. Não tenho nada. Não tenho nada a perder. O que eu tinha a perder larguei em outra cidade. Conto minhas histórias pra estranhos. Até encontrar aquele rosto que havia encontrado na praça. E esse rosto que mal conheço me acolhe só pelo calor do olhar. Ela me estende a folha de papel, com meu rosto carimbado e diz que sabia que ia me encontrar de novo. Pergunto sorrindo se meu rosto é tão triste assim, e ela responde que chega a achar estranho como posso carregar somente tristezas e mesmo assim ter um calor no olhar. Eu tento explicar que o vento levou minha tristeza, e que o que tem em mim agora é mágoa, como daquelas mulheres loucas que choram pelas praças. Ela me convida pra sentar em uma mesa no meio do bar. E aquela boca desconhecida começa me contar histórias em uma língua que eu não entendo. Peço pra ela falar mais devagar. E ela repete devagar, mas não adianta. Mas tudo bem. Eu finjo que entendo, finjo que gostei da história e que aquilo tudo me impressionou. E então é minha vez. E eu invento uma história, e invento tristezas para impressionar, e invento alegrias pra encantar. E até conto um pouco de verdade. Digo que larguei a família e amigos em outro lugar, e vim pra cá, achando que novos ares trariam novas esperanças. Ela pergunta se eu encontrei o que procurava. E eu minto que sim, que me sinto renovado. E ela não entende muita coisa. Mas finge que entende e que se impressionou muito com tantas tristezas e alegrias. Porque, afinal, só queremos um quarto escuro e um corpo pra abraçar durante o resto da madrugada.
E falamos muito. Bebemos demais. Fumamos demais. Chego à conclusão de que não entendemos praticamente nenhuma palavra que o outro diz. E todas as palavras e tentativas falhas de se comunicar já foram gastas. Todos os olhares já foram trocados, e até alguns toques até já foram utilizados. E continuamos sem nos entender. E tudo bem. Não queremos compreensão. Não queremos mais palavras. Apenas a liberdade de dizer que sim. Dizer que tudo bem, que tanto faz. Venha comigo pra essas ruas estranhas. Para um quarto escuro de hotel. Diga que tudo bem, diga que tanto faz. Como naquele livro da Clarice. Basta dizer que sim.
Diga que sim.
Sim.
uma alma especial reconhece de imediato a outra”
(Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)
Início de tarde, e o sol refletia em cada centímetro daquela praça. Mas não fazia calor. Um vento vinha rasgando a movimentação naquela cidade e arrepiava minha pele cada vez que batia um pouco mais forte. A praça estava absurdamente cheia e eu não sabia exatamente por quê. Depois fui descobrir que aquele era o dia em que as mães iam chorar pelos filhos mortos na ditadura. Quanto tempo faz desde a ditadura argentina? Uns quarenta anos. Acho que tem mágoas que a gente não supera, mesmo. Só aprende a conviver com elas. Aliás, será que tem alguma mágoa que a gente supera? Tristeza é diferente. Tristeza a gente vive todo dia, e supera todo dia. Mágoa é outra coisa. É dentro. Mágoa machuca a alma, tristeza machuca a pele e sangra. Mágoa não sangra, por isso fica trancada lá dentro e não cura. Pele nasce de novo; a alma não.
E foi aí perdido em mágoas que o vento bateu na minha pele levando as tristezas embora e enxaguando as lágrimas, que minha vista deixou de ficar turva e eu pude vê-la. Acho que não havia nada de muito especial nela. Olhos escuros, assim como o seu cabelo e a pele branca, quase pálida. E como naquele conto do Caio, duas almas especiais se reconhecem de imediato em um deserto de almas também desertas. Mas as almas não falam, por isso não levantei do meu banco pra tentar me aproximar. Só fiquei observando o jeito como ela não tirava as mãos do bolso e fotografava cada centímetro daquela praça com os olhos. Às vezes ela se sentava e tirava um pedaço de papel e uma caneta do bolso e começava a desenhar. Percebi como seus olhos às vezes procuravam os meus, e ela olhava rapidamente pra mim e botava-se novamente a traçar linhas naquele papel. O lápis se movia levemente no papel como se fosse uma continuação dos seus dedos. E seguiu assim por uma hora com seus olhos me procurando. Até que começou a escurecer, as loucas corrompidas de mágoas foram embora. E eu voltei pro meu quarto de hotel.
Preso noite adentro nesse quarto estranho. A madrugada vai caindo com gosto de angústia estampado na cara do céu. Nessa cidade estranha que me faz lembrar os amores que deixei. Só me traz saudade. Não sei como posso sentir saudades no meio de tanta gente. Quanta gente nessa cidade, quanta gente nessas casas, nas ruas, nas praças, nos becos. Quantos pássaros tão soltos pelos ares. Bons ares de Buenos Aires. Tem alguém que me persegue pelos sonhos, imagens de ruas que não conheço. Perco-me nas ruas como me perco aqui dentro em saudades.
Saio para rua noite adentro. Procuro um rosto amigo que possa confortar. Mas não conheço ninguém aqui. Quero só um rosto, então. Um semblante desconhecido que eu possa chamar de meu por uma noite. Nem uma noite, apenas algumas horas. Perco-me em bares estranhos, e algumas pessoas vêm me perguntar se eu quero ajuda. Será que está tão estampada na minha cara, a minha perdição? Não, não quero ajuda. Não tenho nada. Não tenho nada a perder. O que eu tinha a perder larguei em outra cidade. Conto minhas histórias pra estranhos. Até encontrar aquele rosto que havia encontrado na praça. E esse rosto que mal conheço me acolhe só pelo calor do olhar. Ela me estende a folha de papel, com meu rosto carimbado e diz que sabia que ia me encontrar de novo. Pergunto sorrindo se meu rosto é tão triste assim, e ela responde que chega a achar estranho como posso carregar somente tristezas e mesmo assim ter um calor no olhar. Eu tento explicar que o vento levou minha tristeza, e que o que tem em mim agora é mágoa, como daquelas mulheres loucas que choram pelas praças. Ela me convida pra sentar em uma mesa no meio do bar. E aquela boca desconhecida começa me contar histórias em uma língua que eu não entendo. Peço pra ela falar mais devagar. E ela repete devagar, mas não adianta. Mas tudo bem. Eu finjo que entendo, finjo que gostei da história e que aquilo tudo me impressionou. E então é minha vez. E eu invento uma história, e invento tristezas para impressionar, e invento alegrias pra encantar. E até conto um pouco de verdade. Digo que larguei a família e amigos em outro lugar, e vim pra cá, achando que novos ares trariam novas esperanças. Ela pergunta se eu encontrei o que procurava. E eu minto que sim, que me sinto renovado. E ela não entende muita coisa. Mas finge que entende e que se impressionou muito com tantas tristezas e alegrias. Porque, afinal, só queremos um quarto escuro e um corpo pra abraçar durante o resto da madrugada.
E falamos muito. Bebemos demais. Fumamos demais. Chego à conclusão de que não entendemos praticamente nenhuma palavra que o outro diz. E todas as palavras e tentativas falhas de se comunicar já foram gastas. Todos os olhares já foram trocados, e até alguns toques até já foram utilizados. E continuamos sem nos entender. E tudo bem. Não queremos compreensão. Não queremos mais palavras. Apenas a liberdade de dizer que sim. Dizer que tudo bem, que tanto faz. Venha comigo pra essas ruas estranhas. Para um quarto escuro de hotel. Diga que tudo bem, diga que tanto faz. Como naquele livro da Clarice. Basta dizer que sim.
Diga que sim.
Sim.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Garçom, sem gelo, por favor.
Ele trazia no peito o peso de um caso de amor fracassado. E eu trazia nas mãos uma carreira de escritor promissora, ou pelo menos era isso que me diziam. Mas não nos encontramos de imediato. E, talvez, melhor assim. Pois se seus olhos me tocassem logo no primeiro instante em que entrei naquele bar, talvez pensassemos que era apenas um acaso e desviaríamos o olhar, procurando alguma outra coisa que pudesse nos encantar. Então, talvez para evitar desencantos prematuros, logo que entrei, ele não teve sua atenção desviada do que estava fazendo para admirar os meus passos naquele chão de madeira. Continuou atento ao cinzeiro de pedra lotado de cinzas e filtros de cigarros. Eu andei devagar até o balcão. Sentei e pensei em pedir uma cerveja, mas acabei com um whisky com gelo na minha frente. Porque uma cerveja não iria bastar, e um whisky sem gelo já era demais. E foi só quando o garçom depositou o copo em minha frente, que o outro levantou o olhar. Ele também bebia whisky, mas sem gelo, para enfrentar o seu caso de amor fracassado. E com o olhar desviado do cinzeiro ele pôde finalmente levantar a cabeça e então nos encaramos. E foi só a partir daí que eu pude sentir um pequeno ferimento no meu peito, como se um pequeno espinho estivesse sendo pressionado devagar sob minha pele. Na hora não entendi o que era aquele pequeno ferimento, mas senti como se o sangue estivesse realmante caindo pelo meu peito. Naquele momento, eu não saberia dizer o que ele guardava naquele olhar que fazia meu peito sangrar de leve, e talvez nunca viria a entender. Mas sei que ele me olhava de um jeito que até a minha alma sentiu-se observada. E foi só depois que nosso olhar se quebrou que eu pude me aproximar. Fui até a mesa mais do canto do bar e perguntei se podia sentar. Ele balançou a cabeça olhando pra cadeira vaga como quem concorda. E, então trocamos algumas palavras que sempre são usadas por duas pessoas, com esperanças derrotadas, que estão tentando saber um pouco mais da tristeza do outro. Ele me perguntou o que eu fazia. Eu falei que escrevia. Então houve uma grande pausa em que ele parou e fumou quase um cigarro inteiro, até que me perguntou:
- E sobre o que você escreve?
- Sobre desencantos.
- Eu devo carregar desencantos suficientes pra escrever um livro.
- E você acha que isso basta pra escrever?
- Não é isso que você faz? Vive um desencanto e se põe a escrever sobre ele?
- Claro. Mas não acho que seja suficiente. Me faltam dedos pra contar quantos desencantos já tive, mas mesmo assim ainda acredito no meu coração. Você acha que consegue fazer isso? Gastar o coração e continuar a sentir ele batendo? Matar as esperanças e mesmo assim conseguir escrever uma história de amor?
- Nunca soube se desisti do meu coração, ou se ele é que desistiu de mim. Resisti até a última gota de água se extinguir no deserto do meu peito. A gente aguenta por um tempo, sabe. Mas o coração vai secando. Até que uma hora a gente se acostuma com a sede. Não é que a sede acabe...a sede continua. Mas a gente cansa de alimentar desencantos...
Parei, então, para observa-lo. Ele tragava lentamente o cigarro e a cada gole em seu whisky ele fazia uma cara de quem realmente sentia aquela bebida descer rasgando a garganta. Ele apagou o cigarro e continuou:
- Como você consegue? Falar de amor vivendo em um mundo de corações escuros? Eu já me dei por vencido na batalha de procurar alguma luz. Dentro de mim, dentro de você... é tudo escuro.
- Isso não é verdade. Por mais que o peito cale, ainda resta uma luz. As pessoas cansam de alimentar desencantos, mas no fim sempre há luz. Dentro de mim, detro de você. O cigarro que você apagou pode ser re-aceso. A gente quer a luz pra enxergar no meio de corações escuros, um encanto pra depois se desencantar. Ninguém aguenta viver na escuridão eternamente. A gente quer luz.
- Ou sombra.
Eu fiquei em silêncio. Ele se levantou e tirou alguns trocados do bolso e mandou eu pagar a conta pra ele.
- Você tem uma caneta?
Eu entreguei a caneta. Ele rabiscou algumas palavras em um guardanapo. Depois me entregou e disse:
- Isso é pra você parar de alimentar seus desencantos. Depois vai pra casa e escreve alguma coisa sobre um garoto que não conhecia a luz.
Ele saiu pela porta do bar e eu desdobrei o guardanapo:
"Importante é a escuridão que nos revira os olhos. Quem enxerga muita luz só olha para fora. A sombra nos obriga a ir procurar luz em outro lugar. E tentamos acha-la no nosso próprio peito, mas não encontramos. Importante é a sombra que nos faz olhar para dentro do peito. Importante é a escuridão que faz a gente perceber o escuro de cada coração."
Pensei que talvez ele realmente tivesse desencantos suficientes. A última faísca do cigarro que ele havia depositado no cinzeiro se apagou. E eu revirei meus olhos, procurando algum resto de luz. Não encontrei. Levantei a mão segurando meu copo de whisky que agora estava vazio. Balancei o copo no alto:
- Garçom, sem gelo, por favor.
- E sobre o que você escreve?
- Sobre desencantos.
- Eu devo carregar desencantos suficientes pra escrever um livro.
- E você acha que isso basta pra escrever?
- Não é isso que você faz? Vive um desencanto e se põe a escrever sobre ele?
- Claro. Mas não acho que seja suficiente. Me faltam dedos pra contar quantos desencantos já tive, mas mesmo assim ainda acredito no meu coração. Você acha que consegue fazer isso? Gastar o coração e continuar a sentir ele batendo? Matar as esperanças e mesmo assim conseguir escrever uma história de amor?
- Nunca soube se desisti do meu coração, ou se ele é que desistiu de mim. Resisti até a última gota de água se extinguir no deserto do meu peito. A gente aguenta por um tempo, sabe. Mas o coração vai secando. Até que uma hora a gente se acostuma com a sede. Não é que a sede acabe...a sede continua. Mas a gente cansa de alimentar desencantos...
Parei, então, para observa-lo. Ele tragava lentamente o cigarro e a cada gole em seu whisky ele fazia uma cara de quem realmente sentia aquela bebida descer rasgando a garganta. Ele apagou o cigarro e continuou:
- Como você consegue? Falar de amor vivendo em um mundo de corações escuros? Eu já me dei por vencido na batalha de procurar alguma luz. Dentro de mim, dentro de você... é tudo escuro.
- Isso não é verdade. Por mais que o peito cale, ainda resta uma luz. As pessoas cansam de alimentar desencantos, mas no fim sempre há luz. Dentro de mim, detro de você. O cigarro que você apagou pode ser re-aceso. A gente quer a luz pra enxergar no meio de corações escuros, um encanto pra depois se desencantar. Ninguém aguenta viver na escuridão eternamente. A gente quer luz.
- Ou sombra.
Eu fiquei em silêncio. Ele se levantou e tirou alguns trocados do bolso e mandou eu pagar a conta pra ele.
- Você tem uma caneta?
Eu entreguei a caneta. Ele rabiscou algumas palavras em um guardanapo. Depois me entregou e disse:
- Isso é pra você parar de alimentar seus desencantos. Depois vai pra casa e escreve alguma coisa sobre um garoto que não conhecia a luz.
Ele saiu pela porta do bar e eu desdobrei o guardanapo:
"Importante é a escuridão que nos revira os olhos. Quem enxerga muita luz só olha para fora. A sombra nos obriga a ir procurar luz em outro lugar. E tentamos acha-la no nosso próprio peito, mas não encontramos. Importante é a sombra que nos faz olhar para dentro do peito. Importante é a escuridão que faz a gente perceber o escuro de cada coração."
Pensei que talvez ele realmente tivesse desencantos suficientes. A última faísca do cigarro que ele havia depositado no cinzeiro se apagou. E eu revirei meus olhos, procurando algum resto de luz. Não encontrei. Levantei a mão segurando meu copo de whisky que agora estava vazio. Balancei o copo no alto:
- Garçom, sem gelo, por favor.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Não entorperça minha solidão com seus poemas.
“Você consegue me ouvir?” Foi a primeira coisa que eu ouvi ao acordar. Eu conseguia, claro, não tinha dúvida nenhuma de que eu era capaz de te ouvir. A única questão era: por quanto tempo ainda conseguiria agüentar? Eu tinha recém acordado de um sonho em que você estava longe, e eu sorria. Preferi fingir que eu continuava dormindo para não ter que agüentar. Então fiquei deitada lembrando como havia acontecido. Em que momento será que eu não consegui mais suportar? Começara de forma mansa. Você apareceu em alguma tarde e nós bebemos alguma coisa. Depois você olhou eu fumando alguns cigarros e foi embora. Na tarde seguinte você voltou, e fizemos a mesma coisa. Isso se repetiu por três semanas, até que eu te beijei, ou você me beijou, não conseguia lembrar. Mas o importante era que nossos lábios se encostaram de alguma forma ou de outra, e desde então você passou a viver dentro de mim, e ao meu lado.
Não quero iludir ninguém, nem me enganar dizendo que não te amei, pois como dizer que não era amor se meu espírito perdia a dureza ao ouvir você falar? E meu coração se entorpecia toda vez que você me tocava. Como dizer que não era amor, se me tornava indefesa a cada toque, e se, após o toque, você me trazia de novo a valentia ao me beijar. E quando você saía, eu dizia para me trazer um maço de cigarros e ia até à mesa escrever pequenos poemas de amor. Se você se atrasava, meu peito disparava, e eu andava de um lado pro outro pensando o que poderia ter acontecido. Depois tentava me acalmar dizendo que tudo ia ficar bem. E sorria. Eu sorria por saber que você iria voltar. Quando você, de fato, voltava meu peito se acalmava a cada sílaba que você falava.
Não vou me iludir. Eu gostava tanto de acordar com o som da água fervendo. Você acordava cedo e quando eu acordava você já estava sentada na sala de estar com um café na mão lendo Emily Dickinson. Você apontava para a mesa, já tinha feito meu café. Muito café e pouco açúcar. Você sempre acertava. E então me lia partes de algum poema. Lembro-me principalmente de um que falava sobre como é forte o coração. Parecia tão perfeito encontrar seus olhos ao acordar, e você sempre lia poemas de manhã. No fim da tarde lia contos, e romances antes de dormir. Você lia as partes que mais gostava e parecia tão perfeito cada palavra que você me dizia. Eu adorava o jeito como sussurrava ao pé do meu ouvido me chamando pra cama. Você também cantava baixinho um ou outro samba, de vez em quando. Solfejava Chico Buarque enquanto preparava o jantar e depois me pegava pela mão pra dançar ao som de um samba qualquer.
Não sei quando foi que nosso amor perdeu aquele jeito manso, mas houve um dia em que passei a odiar o jeito que você me chamava para trepar, e não suportava mais os seus poemas de manhã. O café que você fazia estava amargo, e eu não me preocupava se você se atrasava. Não brigávamos, apenas ficávamos em silêncio todas as tardes. Você com seus livros, e eu com meu cigarro. Você não olhava mais eu tragando fundo, e eu não ouvia seus poemas. Acordava todo dia com o som irritante da água fervendo, e tomava o café amargo que você fazia. Às vezes você reclamava. E eu nem dava mais bola.
Mas hoje parecia que algo havia mudado, pois não foi o barulho insuportável da água fervendo que me acordou. Foi a sua voz, que estava mais doce do que nunca. Aquela mesma voz que ontem mesmo eu não podia suportar, hoje me parecia tão calma. Como se aquela suavidade do começo do nosso amor tivesse voltado pra me acordar de manhã. Então resolvi me levantar. Você não estava sentada na sala como de costume. Procurei na cozinha, e também não estava. Mas ouvi baixinho a melodia de uma canção conhecida saindo dos lábios que eu sabia que eram seus. Caminhei até a porta e te encontrei ali. Você estava tirando a chave do seu chaveiro e a pondo em cima de mesinha que ficava ao lado da porta. Você me olhou e disse:
- Seu café está na mesa.
- Onde você vai?, perguntei.
- Essa casa é pequena demais. E seu amor é pequeno demais para mim.
Então você fechou a porta e foi embora. Eu só conseguia pensar em como sua voz estava calma. Sentei no sofá. Ela esqueceu o livro de poemas, pensei. Tomei meu café. Estava amargo. Minha maior preocupação era quem iria me fazer café amanhã. Pensei em ligar, mas, na verdade, não queria que ela voltasse. Não queria seus poemas, e muito menos sua voz me chamando pra cama. Eu não precisaria acordar cedo pra ouvir aqueles poemas, e nem dormir com a luz acesa pra que você lesse seus romances. Não precisaria de mais ninguém querendo entorpecer minha solidão com poemas. Eu não queria que ela voltasse, só queria explicar: não é que meu amor fosse pequeno, querida, é que minha solidão é muito maior.
E então voltei a dormir. E pela primeira vez, em dois anos e meio, eu dormi bem.
Não quero iludir ninguém, nem me enganar dizendo que não te amei, pois como dizer que não era amor se meu espírito perdia a dureza ao ouvir você falar? E meu coração se entorpecia toda vez que você me tocava. Como dizer que não era amor, se me tornava indefesa a cada toque, e se, após o toque, você me trazia de novo a valentia ao me beijar. E quando você saía, eu dizia para me trazer um maço de cigarros e ia até à mesa escrever pequenos poemas de amor. Se você se atrasava, meu peito disparava, e eu andava de um lado pro outro pensando o que poderia ter acontecido. Depois tentava me acalmar dizendo que tudo ia ficar bem. E sorria. Eu sorria por saber que você iria voltar. Quando você, de fato, voltava meu peito se acalmava a cada sílaba que você falava.
Não vou me iludir. Eu gostava tanto de acordar com o som da água fervendo. Você acordava cedo e quando eu acordava você já estava sentada na sala de estar com um café na mão lendo Emily Dickinson. Você apontava para a mesa, já tinha feito meu café. Muito café e pouco açúcar. Você sempre acertava. E então me lia partes de algum poema. Lembro-me principalmente de um que falava sobre como é forte o coração. Parecia tão perfeito encontrar seus olhos ao acordar, e você sempre lia poemas de manhã. No fim da tarde lia contos, e romances antes de dormir. Você lia as partes que mais gostava e parecia tão perfeito cada palavra que você me dizia. Eu adorava o jeito como sussurrava ao pé do meu ouvido me chamando pra cama. Você também cantava baixinho um ou outro samba, de vez em quando. Solfejava Chico Buarque enquanto preparava o jantar e depois me pegava pela mão pra dançar ao som de um samba qualquer.
Não sei quando foi que nosso amor perdeu aquele jeito manso, mas houve um dia em que passei a odiar o jeito que você me chamava para trepar, e não suportava mais os seus poemas de manhã. O café que você fazia estava amargo, e eu não me preocupava se você se atrasava. Não brigávamos, apenas ficávamos em silêncio todas as tardes. Você com seus livros, e eu com meu cigarro. Você não olhava mais eu tragando fundo, e eu não ouvia seus poemas. Acordava todo dia com o som irritante da água fervendo, e tomava o café amargo que você fazia. Às vezes você reclamava. E eu nem dava mais bola.
Mas hoje parecia que algo havia mudado, pois não foi o barulho insuportável da água fervendo que me acordou. Foi a sua voz, que estava mais doce do que nunca. Aquela mesma voz que ontem mesmo eu não podia suportar, hoje me parecia tão calma. Como se aquela suavidade do começo do nosso amor tivesse voltado pra me acordar de manhã. Então resolvi me levantar. Você não estava sentada na sala como de costume. Procurei na cozinha, e também não estava. Mas ouvi baixinho a melodia de uma canção conhecida saindo dos lábios que eu sabia que eram seus. Caminhei até a porta e te encontrei ali. Você estava tirando a chave do seu chaveiro e a pondo em cima de mesinha que ficava ao lado da porta. Você me olhou e disse:
- Seu café está na mesa.
- Onde você vai?, perguntei.
- Essa casa é pequena demais. E seu amor é pequeno demais para mim.
Então você fechou a porta e foi embora. Eu só conseguia pensar em como sua voz estava calma. Sentei no sofá. Ela esqueceu o livro de poemas, pensei. Tomei meu café. Estava amargo. Minha maior preocupação era quem iria me fazer café amanhã. Pensei em ligar, mas, na verdade, não queria que ela voltasse. Não queria seus poemas, e muito menos sua voz me chamando pra cama. Eu não precisaria acordar cedo pra ouvir aqueles poemas, e nem dormir com a luz acesa pra que você lesse seus romances. Não precisaria de mais ninguém querendo entorpecer minha solidão com poemas. Eu não queria que ela voltasse, só queria explicar: não é que meu amor fosse pequeno, querida, é que minha solidão é muito maior.
E então voltei a dormir. E pela primeira vez, em dois anos e meio, eu dormi bem.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Estrelas de Agosto
Ainda não era agosto, embora, dentro dele, quase sempre fosse essa época de desgosto. Mas fora dele ainda não. E a noite naquela cidade ia caindo aos poucos em ritmo de samba. Ele se levantou do sofá e caminhou lentamente em direção à janela para admirar as luzes das salas de estar de seus vizinhos que iam se apagando, enquanto todo mundo arrumava-se para sair de casa. Algumas continuavam acesas e ele pensou em gritar para estes que ainda não era agosto e a noite ia caindo em ritmo de samba. Depois repetiu para si mesmo essas mesmas palavras que pensou em gritar. Repetiu baixinho ao pé de seu próprio ouvido, enquanto servia duas taças de vinho: uma para ele e outra para ninguém.
Sentou-se na cadeira na ponta da mesa nova que ele havia comprado recentemente. Era de alguma madeira cara importada de algum país da Europa. Pensou nos dias inteiros de trabalho doados àquela empresa recentemente privatizada pelo governo, e pensou se valia a pena tanto esforço pra dividir a recompensa com apenas uma taça de vinho e ninguém para segurá-la. Lembrou-se de Fernando Pessoa e as lágrimas de Portugal. E disse a si mesmo que sua alma devia ser pequena demais, então, já que há muito tempo sentia sua vida acabar toda vez que lavava o rosto de manhã. Estendeu a mão e brindou sua taça com a taça de vinho apoiada na mesa. A taça tombou e o vinho tinto foi caindo como sangue e, por um momento, ele desejou que aquele sangue derramado fosse dele. Pensou em só se preocupar com isso amanhã, quando agosto chegasse.Acendeu um cigarro e sentiu uma azia que ele não tinha certeza se era pelo vinho ou pelo mal-estar que já fazia parte do seu corpo. É o vinho. E serviu um pouco mais em sua taça, e um pouco mais na taça de ninguém. Por um breve momento, em que a consciência resolveu falar com ele, depois de tanto tempo sem dar as caras, ele achou que estava louco, servindo vinho pra ninguém e sussurrando sambas em seu próprio ouvido. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de solidão. Deteve-se no pensamento sobre a solidão por algum tempo. Deteve-se dentro de si mesmo, do mesmo jeito que alguém que ama detém-se nos olhos da pessoa amada.
So-li-dão.
Repetiu a palavra em sussurros separando bem as sílabas como quem divide um texto tentando entendê-lo melhor, com um cigarro aceso entre seus dedos, e duas taças de vinho em sua frente. Estado de quem está só. E tentando se confortar gritou bem alto perguntando pra ninguém ouvir, afinal, quem não está sozinho? Algumas pessoas disfarçam melhor. Ele já havia cansado de disfarces e moveu sua mão até seu rosto sem nenhuma máscara com marcas de tristeza estampadas por todo seu semblante, que iam ficando mais fortes de acordo com o tempo.Contornou os traços do seu próprio rosto com os dedos. Nunca havia feito isso antes, e foi descendo pelo seu pescoço, passando para o peito, onde parou de repente pra tentar escutar seu próprio coração. Com os dedos esticados contornou seu corpo inteiro delicadamente, como se guardasse um certo receio de si mesmo. Achando que se seus dedos tocassem sua pele com um pouco mais de vigor, ele se quebraria em pedaços. Sim, estou frágil, pensou. E então, com toda delicadeza contornou seu corpo como quem faz um desenho no ar, ou como quem toca em um corpo nu pela primeira vez. E concluiu sua nudez por trás de seu silêncio. Mas um silêncio que não era ausência de palavras, era simplesmente a ausência de máscaras. Era uma nudez, um silêncio, deixando transparecer qualquer segredo. Era seu pensamento querendo alguém para decifrar a sua simplicidade pela falta de disfarces Era a fala engasgada demonstrando a angústia estampada no calendário que marcava dia 31 de Julho. E ele pensou que talvez estivesse louco, contornando o próprio corpo e sentindo angustia só por olhar o calendário. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de desespero. Tentou se recompor, disse a si mesmo que não se desesperasse. Levantou-se fechando o casaco que havia aberto para poder contornar o próprio peito. Apagou o cigarro e disse a si mesmo que precisava de mais vinho.Dirigiu-se até a geladeira, tropeçando em seus próprios pés pelo vinho que já fazia efeito em sua cabeça. No meio do caminho olhou de relance para o espelho do banheiro, mas desviou o olhar. É preciso muita coragem pra se mirar no espelho em uma véspera de agosto, pensou. E seguiu em frente querendo esquecer o pequeno olhar que o espelho refletiu. Depois concluiu que era impossível esquecer alguns olhares, principalmente aqueles tristes, e mais ainda, seu próprio olhar refletido no espelho. As pálpebras se fechando, por razões que ele ainda não sabia se era sono ou tristeza, ou as duas coisas. Um brilho de leve fingindo que ainda acreditava em esperança, ou então, talvez fosse só a água em seus olhos que se preparava para escorrer pelo seu rosto. Mentiu, por fim, a si mesmo, dizendo que deviam ser lágrimas de esperança, e piscou os olhos deixando a lágrima cair, sem saber exatamente o verdadeiro motivo de porque aquela água rolava pelo seu rosto. Tentando entender, resolveu se encarar no espelho. Adiou um pouco ainda o encontro consigo mesmo, abriu a porta da geladeira e só achou meia garrafa de vodka. E a essa altura tudo bem. Pegou mais dois copos, e serviu um pouco em cada um, e brindou mais uma vez com alguém que não estava ali. Aproximou-se do espelho, encostou os dois copos na pia, e passou de leve suas mãos pelo mármore, ainda de cabeça baixa. Suspirou fundo, pronto pra se encarar. Ergueu devagar a cabeça. Mirou os seus próprios olhos na fronteira de seu olhar. Admirou seu rosto com feridas consagradas de invernos que passaram. E pensou que antes não era assim. Não sabia exatamente antes do que ou de quem. Mas afirmou assim meio perdido apenas antes. Via seu rosto menos triste antigamente. Antigamente quando? Não sabia direito. Mas não tinha essas feridas em sua boca, nem essas marcas de noites sem dormir, muito menos esse caráter cansado em seus olhos de quem viveu demais mesmo sem viver nada. Vivendo muito em tão pouco. Como se cada detalhe de alguma coisa que dá errado lhe custasse um pouco de sua vida. Mas claro que todo mundo cansa, pensou. Claro que chega uma hora em que é preciso estar cansado, deitar sozinho de madrugada e chorar baixinho, sem querer alguém pra lhe consolar. Mas, pra grande parte das pessoas, esse estar cansado viria seguido da palavra ‘eventualmente’ ou ‘às vezes’ ou em alguns casos até um ‘raramente’. Mas, então, será que tudo bem esse estar cansado ser meu estado natural?
As palavras vagavam pela sua cabeça e, às vezes, quando ele se distraía, elas saíam ardendo de sua boca e se perdiam pelo apartamento vazio. Bebeu mais. Acendeu outro cigarro e de repente viu seu rosto perdendo a forma no espelho, as linhas foram perdendo a intensidade e desaparecendo. E quando seu reflexo desapareceu totalmente, ele achou que talvez estivesse morto e sentiu de perto o frio. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de morte.Caminhou letamente até a janela novamente. Tragou o cigarro e suspirou, soltando a fumaça, dando uma espécie de boas-vindas àquele mês que estava chegando. Mas depois se questionou dizendo que, na verdade, era como se agosto estivesse ali, do seu lado, naquele instante, e o tempo inteiro que havia passado. Ele servira vinho pra dividir com aquele mês de desgosto. E até tinha admirado o sangue de agosto escorrer derramado de cima de sua mesa nova. Olhara agosto refletido ao seu lado no espelho. E sentia toda hora. Chegando cada vez mais perto. Até que percebeu que aqueles sintomas não eram mais anúncios de chegada. Agosto havia chegado, trazendo uma espécie de loucura, de desespero, de solidão, uma espécie de morte e um lamento que ele sabia que ia durar mais trinta dias. Dirigiu seus olhos para o lado de fora e olhou o primeiro dia de agosto que aterrisava aos poucos em cada centímetro daquela cidade. Sim, pensou, agosto finalmente havia chegado pra lhe fazer companhia. E agora sim, ele sentia em cada pedaço de seu corpo, que ele havia contornado com tanto cuidado, feridas consagradas de invernos passados. Passou a mão nas feridas com o espanto de quem vê a dor pela primeira vez. Levantou a cabeça e viu uma estrela passando no céu. Esticou a mão cheia de feridas abertas, segurou firme e trouxe a estrela pra bem perto de si. Lembrou que sempre lhe diziam que quando as estrelas passam correndo deve-se fazer um pedido. Olhou a estrela bem de perto com os olhos ofuscados de tanto brilho, e disse baixinho:- Faz agosto passar depressa.A estrela sorriu. Disse que não podia mexer nas horas. E o tempo passa sempre no mesmo compasso. Mas olhando bem dentro dos olhos dele, ela prometeu que mais cedo ou mais tarde iria passar. Ele sorriu aliviado. Soltou a estrela, mas ela continuo em sua mão por algum tempo, e depois foi se dirigindo lentamente até ficar lado a lado com seu rosto, no qual se deteve brevemente. Naquele rosto de tristezas estampadas pelo tempo. Ele continuou olhando pra frente, estático admirando todas estrelas no céu, até que ouviu uma canção declamada baixinho em seu ouvido. Olhou para o lado e viu a estrela ali cantando. Era quase um samba. Ela repetia várias vezes de forma tão delicada que ficava fácil acreditar:- Agosto vai passar, agosto vai passar…
Ele olhou de novo pro céu e viu mil estrelas pulsando em solidão lá em cima, enquanto seu coração pulsava aliviado lá embaixo. Ele sorriu e agarrou novamente a estrela, botando-a bem perto de seu peito como quem aceita o tempo de cada coisa. Fechou os olhos e cantou junto com a estrela aquele quase-samba e se permitiu acreditar. Acreditar que atrás da loucura, da solidão, do desespero, e atrás até da morte, sempre vai existir uma estrela cantando esperanças. Agosto vai passar… Sim, agosto vai passar…
Sentou-se na cadeira na ponta da mesa nova que ele havia comprado recentemente. Era de alguma madeira cara importada de algum país da Europa. Pensou nos dias inteiros de trabalho doados àquela empresa recentemente privatizada pelo governo, e pensou se valia a pena tanto esforço pra dividir a recompensa com apenas uma taça de vinho e ninguém para segurá-la. Lembrou-se de Fernando Pessoa e as lágrimas de Portugal. E disse a si mesmo que sua alma devia ser pequena demais, então, já que há muito tempo sentia sua vida acabar toda vez que lavava o rosto de manhã. Estendeu a mão e brindou sua taça com a taça de vinho apoiada na mesa. A taça tombou e o vinho tinto foi caindo como sangue e, por um momento, ele desejou que aquele sangue derramado fosse dele. Pensou em só se preocupar com isso amanhã, quando agosto chegasse.Acendeu um cigarro e sentiu uma azia que ele não tinha certeza se era pelo vinho ou pelo mal-estar que já fazia parte do seu corpo. É o vinho. E serviu um pouco mais em sua taça, e um pouco mais na taça de ninguém. Por um breve momento, em que a consciência resolveu falar com ele, depois de tanto tempo sem dar as caras, ele achou que estava louco, servindo vinho pra ninguém e sussurrando sambas em seu próprio ouvido. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de solidão. Deteve-se no pensamento sobre a solidão por algum tempo. Deteve-se dentro de si mesmo, do mesmo jeito que alguém que ama detém-se nos olhos da pessoa amada.
So-li-dão.
Repetiu a palavra em sussurros separando bem as sílabas como quem divide um texto tentando entendê-lo melhor, com um cigarro aceso entre seus dedos, e duas taças de vinho em sua frente. Estado de quem está só. E tentando se confortar gritou bem alto perguntando pra ninguém ouvir, afinal, quem não está sozinho? Algumas pessoas disfarçam melhor. Ele já havia cansado de disfarces e moveu sua mão até seu rosto sem nenhuma máscara com marcas de tristeza estampadas por todo seu semblante, que iam ficando mais fortes de acordo com o tempo.Contornou os traços do seu próprio rosto com os dedos. Nunca havia feito isso antes, e foi descendo pelo seu pescoço, passando para o peito, onde parou de repente pra tentar escutar seu próprio coração. Com os dedos esticados contornou seu corpo inteiro delicadamente, como se guardasse um certo receio de si mesmo. Achando que se seus dedos tocassem sua pele com um pouco mais de vigor, ele se quebraria em pedaços. Sim, estou frágil, pensou. E então, com toda delicadeza contornou seu corpo como quem faz um desenho no ar, ou como quem toca em um corpo nu pela primeira vez. E concluiu sua nudez por trás de seu silêncio. Mas um silêncio que não era ausência de palavras, era simplesmente a ausência de máscaras. Era uma nudez, um silêncio, deixando transparecer qualquer segredo. Era seu pensamento querendo alguém para decifrar a sua simplicidade pela falta de disfarces Era a fala engasgada demonstrando a angústia estampada no calendário que marcava dia 31 de Julho. E ele pensou que talvez estivesse louco, contornando o próprio corpo e sentindo angustia só por olhar o calendário. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de desespero. Tentou se recompor, disse a si mesmo que não se desesperasse. Levantou-se fechando o casaco que havia aberto para poder contornar o próprio peito. Apagou o cigarro e disse a si mesmo que precisava de mais vinho.Dirigiu-se até a geladeira, tropeçando em seus próprios pés pelo vinho que já fazia efeito em sua cabeça. No meio do caminho olhou de relance para o espelho do banheiro, mas desviou o olhar. É preciso muita coragem pra se mirar no espelho em uma véspera de agosto, pensou. E seguiu em frente querendo esquecer o pequeno olhar que o espelho refletiu. Depois concluiu que era impossível esquecer alguns olhares, principalmente aqueles tristes, e mais ainda, seu próprio olhar refletido no espelho. As pálpebras se fechando, por razões que ele ainda não sabia se era sono ou tristeza, ou as duas coisas. Um brilho de leve fingindo que ainda acreditava em esperança, ou então, talvez fosse só a água em seus olhos que se preparava para escorrer pelo seu rosto. Mentiu, por fim, a si mesmo, dizendo que deviam ser lágrimas de esperança, e piscou os olhos deixando a lágrima cair, sem saber exatamente o verdadeiro motivo de porque aquela água rolava pelo seu rosto. Tentando entender, resolveu se encarar no espelho. Adiou um pouco ainda o encontro consigo mesmo, abriu a porta da geladeira e só achou meia garrafa de vodka. E a essa altura tudo bem. Pegou mais dois copos, e serviu um pouco em cada um, e brindou mais uma vez com alguém que não estava ali. Aproximou-se do espelho, encostou os dois copos na pia, e passou de leve suas mãos pelo mármore, ainda de cabeça baixa. Suspirou fundo, pronto pra se encarar. Ergueu devagar a cabeça. Mirou os seus próprios olhos na fronteira de seu olhar. Admirou seu rosto com feridas consagradas de invernos que passaram. E pensou que antes não era assim. Não sabia exatamente antes do que ou de quem. Mas afirmou assim meio perdido apenas antes. Via seu rosto menos triste antigamente. Antigamente quando? Não sabia direito. Mas não tinha essas feridas em sua boca, nem essas marcas de noites sem dormir, muito menos esse caráter cansado em seus olhos de quem viveu demais mesmo sem viver nada. Vivendo muito em tão pouco. Como se cada detalhe de alguma coisa que dá errado lhe custasse um pouco de sua vida. Mas claro que todo mundo cansa, pensou. Claro que chega uma hora em que é preciso estar cansado, deitar sozinho de madrugada e chorar baixinho, sem querer alguém pra lhe consolar. Mas, pra grande parte das pessoas, esse estar cansado viria seguido da palavra ‘eventualmente’ ou ‘às vezes’ ou em alguns casos até um ‘raramente’. Mas, então, será que tudo bem esse estar cansado ser meu estado natural?
As palavras vagavam pela sua cabeça e, às vezes, quando ele se distraía, elas saíam ardendo de sua boca e se perdiam pelo apartamento vazio. Bebeu mais. Acendeu outro cigarro e de repente viu seu rosto perdendo a forma no espelho, as linhas foram perdendo a intensidade e desaparecendo. E quando seu reflexo desapareceu totalmente, ele achou que talvez estivesse morto e sentiu de perto o frio. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de morte.Caminhou letamente até a janela novamente. Tragou o cigarro e suspirou, soltando a fumaça, dando uma espécie de boas-vindas àquele mês que estava chegando. Mas depois se questionou dizendo que, na verdade, era como se agosto estivesse ali, do seu lado, naquele instante, e o tempo inteiro que havia passado. Ele servira vinho pra dividir com aquele mês de desgosto. E até tinha admirado o sangue de agosto escorrer derramado de cima de sua mesa nova. Olhara agosto refletido ao seu lado no espelho. E sentia toda hora. Chegando cada vez mais perto. Até que percebeu que aqueles sintomas não eram mais anúncios de chegada. Agosto havia chegado, trazendo uma espécie de loucura, de desespero, de solidão, uma espécie de morte e um lamento que ele sabia que ia durar mais trinta dias. Dirigiu seus olhos para o lado de fora e olhou o primeiro dia de agosto que aterrisava aos poucos em cada centímetro daquela cidade. Sim, pensou, agosto finalmente havia chegado pra lhe fazer companhia. E agora sim, ele sentia em cada pedaço de seu corpo, que ele havia contornado com tanto cuidado, feridas consagradas de invernos passados. Passou a mão nas feridas com o espanto de quem vê a dor pela primeira vez. Levantou a cabeça e viu uma estrela passando no céu. Esticou a mão cheia de feridas abertas, segurou firme e trouxe a estrela pra bem perto de si. Lembrou que sempre lhe diziam que quando as estrelas passam correndo deve-se fazer um pedido. Olhou a estrela bem de perto com os olhos ofuscados de tanto brilho, e disse baixinho:- Faz agosto passar depressa.A estrela sorriu. Disse que não podia mexer nas horas. E o tempo passa sempre no mesmo compasso. Mas olhando bem dentro dos olhos dele, ela prometeu que mais cedo ou mais tarde iria passar. Ele sorriu aliviado. Soltou a estrela, mas ela continuo em sua mão por algum tempo, e depois foi se dirigindo lentamente até ficar lado a lado com seu rosto, no qual se deteve brevemente. Naquele rosto de tristezas estampadas pelo tempo. Ele continuou olhando pra frente, estático admirando todas estrelas no céu, até que ouviu uma canção declamada baixinho em seu ouvido. Olhou para o lado e viu a estrela ali cantando. Era quase um samba. Ela repetia várias vezes de forma tão delicada que ficava fácil acreditar:- Agosto vai passar, agosto vai passar…
Ele olhou de novo pro céu e viu mil estrelas pulsando em solidão lá em cima, enquanto seu coração pulsava aliviado lá embaixo. Ele sorriu e agarrou novamente a estrela, botando-a bem perto de seu peito como quem aceita o tempo de cada coisa. Fechou os olhos e cantou junto com a estrela aquele quase-samba e se permitiu acreditar. Acreditar que atrás da loucura, da solidão, do desespero, e atrás até da morte, sempre vai existir uma estrela cantando esperanças. Agosto vai passar… Sim, agosto vai passar…
quarta-feira, 21 de maio de 2008
O amor é uma tragédia.
Meus dedos encostaram nos teus como se aquilo fosse um acidente premeditado. Acidente porque nós já havíamos tentado amar uma vez e sabíamos que seria impossível que tivesse nos sobrado alguma força para tentar de novo. Sabíamos do erro, da imprecisão, sabíamos que não deveria ser. Acho que se fossemos comparar, meu amor foi maior que o teu, minha entrega foi o dobro da tua. Mas agora não importava o tamanho do amor que cercava cada um de nós. Agora era simplesmente meus dedos encostando os teus, sem importar quem de nós tinha dado o primeiro passo. Acho que se fossemos analisar, seria assim: eu conseguia amar, mas não queria; você queria, queria desesperadamente, mas não podia, não conseguia. Mas agora não importava mais a calma ou o desespero. Era simplesmente um acidente que meus dedos tivessem tocado os teus, sem importar a hora exata ou a capacidade de amar dentro de nós. Mas não deixava de ser premeditado, pois eu pousei de leve a minha mão em cima da mesa querendo te tocar, e você imitou meu movimento querendo me tocar. E nossos dedos foram se aproximando aos poucos, enquanto as horas se mexiam. E nenhum dos braços se contraiu, tentando frear o acidente. Nenhuma palavra de perdão saiu de nossas bocas, tentando disfarçar a vontade de tocar. Nada aconteceu para fingir que aquilo não era uma escolha. Nossos dedos não se encolheram de leve quando se tocaram. E aquilo foi simplesmente acontecendo, sem que nenhum de nós parasse para teorizar o que poderia acontecer no instante seguinte. Como um carro beirando um penhasco sem que o motorista tire o pé do acelerador. Enfim, meus dedos tocaram os teus, ou seus dedos tocaram os meus, em um gesto leve e delicado e ao mesmo tempo de forma tão brusca que eu não poderia mais dizer se havia sido apenas um toque ou o presságio de uma tragédia que viria logo a seguir. E bateu em mim, e acredito que em ti também, uma lufada de sentimentos tão firme, tão forte, daquelas de dilacerar o mais puro coração. Mas sendo um toque, uma tragédia ou, até, talvez, uma nova tentativa de amar, de um jeito ou de outro nossos dedos se tocaram. E eu levantei minha cabeça e, novamente, você imitou meu movimento e dessa vez foram nossos olhos que se tocaram. E eu, em meio ao desespero, não podia dizer se aqueles olhos que miravam os meus guardavam rancor ou esperança. Não podia dizer se era tristeza pela primeira tentativa que falhou, ou se era felicidade pelo que aquele movimento inicial, de botar a mão mesa, guardava. Não podia dizer se aqueles dedos que tocavam os meus, querendo e não querendo tocar, guardavam receio ou vontade. E também não saberia dizer se aquele sentimento que se instalava em mim era leve ou pesado, bom ou ruim, ódio ou amor. E àquela altura eu não sabia mais que sentimento eu queria dentro de mim e nem sabia mais o que era certo ou errado. Não queria amar, não queria odiar, não queria nada a não ser ficar olhando seus olhos em um quase-ódio, em um quase-amor, enquanto meus dedos tocavam os teus em um movimento leve e delicado, ou em um movimento firme e forte, capaz de dilacerar o meu e o seu coração. E ficamos em silêncio com os dedos encostados e os corações dilacerados. Ficamos em silêncio em um desespero de voltar a tentar, de voltar a amar. Ficamos em silêncio, pois sabíamos que se um de nós falasse alguma coisa teríamos que teorizar aquele toque, aqueles olhos se olhando em um quase-amor, em um quase-ódio de não saber o próximo passo. Sabíamos que se começássemos a falar teríamos que teorizar vontades, mas não queríamos e nem podíamos. E por mais que fosse apenas um pequeno toque sabíamos que aquilo era grande demais para não significar nada. Mas ficamos em silêncio. E eu esperava que de alguma forma aquele acidente, aqueles olhares cruzados, virassem logo uma tragédia. E que aos poucos meus olhos fossem se fechando e seu corpo fosse se movendo para cima do meu corpo, e nossos lábios fossem se encostando, e aquela tragédia fosse se encaminhando, levemente, para tornar-se realidade. Eu queria chegar ao ponto em que eu fosse aquele motorista do carro, beirando ao abismo, que tenta frear no último momento, mas aí já é tarde, a tragédia está feita, o carro está caindo e nossos lábios estão se encostando. E nesse momento eu ouviria um pequeno estalo na minha cabeça que diria que enfim aquele acidente virou tragédia, e não só nossos dedos e olhares se tocavam, mas sim nossos corpos, nossos corações dilacerados, pelo toque inicial. E o estalo me lembraria da incapacidade que eu teria de me guiar a partir daí. Pois faltava teoria dentro de mim, e eu precisava que algo me explicasse o que era aquele toque. E por não saber explicar, fiquei em silêncio, esperando que você desse o primeiro passo, e ao mesmo tempo, sem querer que aquele instante chegasse a um fim. Você piscou os olhos, e nosso olhar se quebrou. E eu pensei que talvez aquele fosse o próximo passo. Pensei que talvez fosse apenas isso. Nossos dedos se encostaram e o próximo passo era nada. Eu tinha duas possibilidades em minhas mãos, e você fazia questão de encostar na ponta dos dedos onde elas estavam. E minha vontade era de dizer me perdoe, por favor, mas será que você pode segurar firme em minha mão, e depois ir soltando aos poucos para eu ver se uma das possibilidades cai no chão, e talvez, assim a outra fique estática grudada em mim, e aí já está escolhido. Pois meu coração está dilacerado, querida, meus olhos não suportam mais te olhar e meu braço está inquieto desde que seus dedos encostaram os meus. E talvez, eu tenha chegado a dizer, mas estava tão concentrada no meu pânico de te-tocar-ou-não que não soube se disse tudo isso ou só pensei em dizer. Mas sei que seu braço foi se mexendo e seus dedos deixando de encostar os meus e passando aos poucos pelas minhas articulações até chegar à palma de minha mão, e continuo subindo ou descendo até meu pulso, onde me segurou como quem segura um punhal e foi me puxando por cima da mesa, por cima do seu corpo, por cima do meu pânico, até eu estar estendida, estática, em cima de você, sentindo o seu coração que batia tão forte, tão firme. E você botou a mão em meu peito, olhando nos meus olhos, como se procurasse um batimento, mas não sei se corações dilacerados costumam bater, e já havia tempo que eu não parava para sentir meu coração pulsando dentro de mim. E você foi se aproximando, e segurou meu outro pulso, enquanto eu continuava a sentir o pulsar do seu peito e a pensar se corações dilacerados batem ou não. E você foi se aproximando como eu tanto imaginei. E veio a minha cabeça a vontade de sair correndo, pois não tinha mais forças para amar. Mas quando me dei conta disso, e tentei frear, já era tarde demais. O carro caía penhasco a baixo e meus lábios estavam próximos demais dos teus. E eu ouvi no fundo da minha cabeça um estalo sinalizando a tragédia. E pensei que talvez sim. Pensei que se sobrou força pra você me puxar pelo pulso, se sobrou vontade para eu me deixar levar, pensei que sim, que ainda haveria uma possibilidade de amar. Ouvi de novo o estalo, e senti meu coração dilacerado batendo aos poucos. E pensei novamente que sim: corações dilacerados batem, e batem forte. E teorizando assim, que meu peito ainda pulsava, fechando os olhos, quebrando o olhar, permitindo que você me puxasse para mais perto ainda, me entreguei, enfim, àquela tragédia.
quinta-feira, 6 de março de 2008
A morena da Rua Augusta.
"Somos muito Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo se equilibra,
no mesmo ventre crescido,
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia."
(Morte e vida severina - João Cabral de Melo Neto)
Nós morávamos em um apartamento de poucos quartos, na esquina da Rua Augusta. Eu, ela, e mais cinco pessoas. Mas esse número mudava com freqüência. Alguns desistiam, uns achavam um lugar melhor e outros simplesmente desapareciam e não voltavam nunca mais. Além disso, muitos outros chegavam a cada dia que passava. Sempre éramos obrigados a chamar mais pessoas para morar com a gente, pois era cada vez mais difícil manter o aluguel em dia, então precisávamos de ajuda. Eu não gostava de convidar outras pessoas, era praticamente como convidar alguém para morrer ao nosso lado, mas era inquestionável que precisávamos. Ah, que precisávamos de ajuda era algo óbvio. Era só olhar nossas unhas roídas pela ansiedade, nossas olheiras denunciando as insônias e a cara fodida de cada um de nós. Precisávamos de um psiquiatra, um psicanalista ou qualquer coisa que nos explicasse como tínhamos chegado a tal ponto. Nos poucos dias que conseguíamos dormir, acordávamos ao nascer do sol pra contemplar o nada em nossas vidas. E também porque não havia cortinas em nenhuma das janelas e o sol logo invadia nossas pálpebras, de um jeito que se tornava impossível agüentar e continuar dormindo. Na verdade, tínhamos chegado a um ponto em que não podíamos agüentar mais nada. E além desse nada e do sol, ainda fazia um frio danado, que fazia com que nós sempre acabássemos transando uns com os outros só para nos esquentar. Mas o sexo não mudava o fato do frio crescer lá fora e dentro de cada um de nós. A vida era um inverno incontrolável. Mas apesar das unhas roídas, das olheiras, da nossa cara fodida, do sol nas pálpebras, do frio crescendo dentro de nós, eu acordava ou via o sol nascendo sempre com uma esperança de que algo poderia mudar. Essa era a única coisa bonita que eu via naquele apartamento: minha esperança. Era incrível que ainda me restasse alguma força para continuar sobrevivendo. Acho que eu era o único que ainda não tinha pensado em suicídio. Todos tinham um pouco de esperança guardado em baixo das pálpebras, mas de tempos em tempos nem isso era suficiente. Era aí que aconteciam os suicídios. De tempos em tempos um de nós se suicidava. Atirava-se pela janela sem cortinas, sentia o sol em suas pálpebras e lembrava-se uma última vez que era impossível agüentar aquele sol nos olhos. Alguns centímetros antes do chão, ainda sentia o frio da cidade. E por último caía de barriga na Rua Augusta.
Era sábado à noite quando aconteceu. Fazia exatamente três meses que nenhum de nós desaparecia ou atirava-se pela janela sem cortinas, e eu estava quase começando a acreditar em eternidade. Estávamos quase todos em casa, porque estávamos fodidos demais, sem dinheiro demais, para sair de noite. Pensamos em procurar um bar e algum dinheiro para beber alguma coisa, brindar a pouca esperança que ainda insistia em permanecer atrás dos nossos olhos, da nossa tristeza, atrás de toda aquela coisa que eu chamava de sobrevivência. Pensamos em sair para tentar achar algo que valesse mais a pena, mas estávamos tristes demais. Estávamos sempre tristes demais, e chorávamos todos os dias por volta das três horas da tarde, e depois de novo à meia-noite. Mas o choro da meia-noite era diferente, acho que era mais um choro de felicidade, se é que isso era possível naquele ponto, por saber que mais um dia se passou sem que fossemos os próximos a se suicidar. Chorávamos todos, mesmo os que tinham recém chegado. A única que não chorava era Ana. E de certa forma ela sempre nos trouxe uma esperança, não sei se por não chorar, mas, talvez, porque víamos nela uma imagem um pouco menos triste. Pelo menos era o que eu achava, mas ao mesmo tempo me vinha uma idéia estranha, de que talvez ela fosse a mais triste de nós e não tivesse mais o que chorar. Como se suas lágrimas não sustentassem sua tristeza. Como se dentro dela houvesse apenas um deserto, seco e cru. E, talvez, essa melancolia guardada atrás dos seus olhos que tentavam chorar e não podiam, nos desse um tipo de esperança por saber que nenhum de nós outros havia chegado ao mesmo ponto que ela.
Naquela noite meu colega estava ao meu lado em plena bad trip, e eu estava sentado no chão, porque não havia poltronas. Eu estava ali sentado pensando que já fazia três meses que ninguém havia desaparecido, nem cometido suicídio, enquanto temtava me concentrar em um livro que eu havia roubado em uma livraria pequena ali na outra esquina. Mas não podia disfarçar que a única coisa em que eu podia me concentrar era aquela janela sem cortinas que mostravam as luzes brilhando do outro lado da Rua Augusta. Eu queria saber quem seria o próximo. E tinha quase toda certeza de que o cara que estava totalmente alucinado ao meu lado iria sair correndo, daqui a pouco, e se atirar na Rua Augusta. Ana havia saído para tentar achar uma dose. Sempre que ela saía, eu ficava meio perdido, ou mais perdido que o normal. Pois perdido eu sempre estava, assim como todos os outros que estavam ali. Quando ela estava em casa eu passava horas olhando para os seus cabelos negros. E às três da tarde enquanto eu chorava, ela ficava observando minhas lágrimas caindo no chão de madeira. Eu tentei me concentrar novamente no livro que eu tentava ler, quando Ana entrou correndo com seus cabelos negros balançando de acordo com o vento que entrava da janela, quase arrombando a porta e gritou:
- Estou presa!
Levantei meus olhos do livro para observá-la, mas logo baixei novamente, porque imaginei que ela tivesse achado a tal dose, cheirado tudo, e aquilo fosse só mais uma de suas viagens estranhas. Mas então ela repetiu, dessa vez quase sussurrando, e eu achei estranho pois ela não costumava sussurrar:
- Estou presa.
Eu levantei meus olhos de novo, e vi como nenhuma das outras pessoas que estavam ali haviam se mexido e como nenhuma parecia se importar. Ninguém naquele apartamento costumava conversar, principalmente porque havíamos chegado a tal ponto em que não conseguíamos mais que alguma coisa que disséssemos fizesse sentido. Mas Ana era diferente, e eu sabia que de alguma forma ela devia ter pensado muito, antes de arrombar a porta e entrar gritando. Talvez fosse por isso que ela não chorava, pois ela tinha algo no que pensar. Todos outros já haviam aceitado a ausência, inclusive eu. Já havíamos aceitado o fato de não ter nada na vida, nem algo no que pensar. Mas Ana não. Ela saía todos os dias e voltava com histórias pra contar, mesmo que nenhum de nós falasse nada, ela continuava a contar suas histórias. Eu me importava com ela, e talvez por isso não houvesse pensado em suicídio, e acho que ela também não. Eu tinha a ela, e ela tinha suas histórias e pensamentos. Mas nenhum de nós tinha tempo para o amor, pois gastávamos todo nosso tempo procurando forças pra manter nossa esperança viva. Ana se aproximou de mim. Segurou muito firme em minhas mãos e me olhou nos olhos, de um jeito que nunca tinha olhado, até porque nenhum de nós tinha tempo ou capacidade para amar. Mas naquele momento ela me olhou, e mesmo que não fosse meia-noite, mesmo que não fosse hora de chorar, eu não pude conter minhas lágrimas. E ela me olhou do jeito que sempre olhava quando eu derramava minhas lágrimas as três da tarde, e olhando assim com um jeito de quem necessita amar, ela me disse:
- Estou presa, estou presa sim. Não venha me dizer que não. Esse coração miserável, essa paixão esgotada por qualquer coisa, essas cinzas que se queimaram e não renascem nunca. Estou presa nessa melancolia, nessas besteiras, nessa merda toda. É, essa merda toda.
Recorreu os olhos pra dentro daquele apartamento minúsculo procurando alguém com um olhar que dissesse que isso ia passar. Não encontrou ninguém. Não havia nada ali. E ela presa naquela coisa que não sabia mais o que era:
- Não há nada aqui, só a fome de todos os dias, o vazio imenso do meu ser, e o pretérito perfeito dos meus amores.
Ela tentou chorar, baixou a cabeça, sentou ao meu lado e pousou seu rosto no meio dos joelhos, mas o deserto que ela tinha dentro do seu peito não lhe dava lágrimas. Ela não chorava. E eu tentei dizer que tudo ia passar, mas eu não sabia mais como falar coisas bonitas. Tudo que me restava era ver Ana falar. E ela continuou:
- Você sente isso também? Você sabe o que é isso? Não ter nada na vida e mesmo assim se sentir presa a alguma coisa? Presa ao nada? Precisamos de muito mais que isso. Precisamos de muito mais, precisamos deixar sangrar. Precisamos de algo além dessas vírgulas e reticências, algo um pouco além dessas vidas tão usuais. Precisamos falar, mostrar, fingir, agir-como-se alguma coisa importasse além da fumaça, do cigarro e do uísque no fim do dia. Eu não quero mais saber de me encontrar ou de me auto-entender. Que seja sobre destino então, que seja sem razão, que se assim tenho de me perder, que não sobre mais nada e que meus olhos fiquem pra sempre procurando algum rosto que me tire daqui. Em um desespero que vou poder pra sempre chamar de meu.
Não, Ana, eu não sinto isso, não sinto mais nada. Tentei dizer que cheguei a tal ponto que a única coisa que eu tinha era a vontade de ouvir suas histórias, enquanto procurava um tempo para conseguir amar. Não, Ana, não estou preso, já me livrei de toda fé. Pensei em dizer, mas não fui capaz, não sabia mais dizer o que eu sentia. Não sabia mais declarar que ela era a única pessoa que alimentava minhas esperanças de continuar sobrevivendo. Não, Ana, já faz tempo que não sinto nada. Ela levantou o rosto dos joelhos me olhou de novo com os olhos de quem não está em liberdade, com olhos de quem acredita em algo no que não deveria se ter fé, e me disse uma última vez:
- Estou presa.
O cara do meu lado se levantou, entrou em um quarto qualquer e caiu dormindo no chão. Ele não era o próximo. Mas novamente, o próximo suicídio estava ao meu lado. Ana se levantou tão rápido que meus olhos quase não puderam acompanhar o seu corpo dirigindo-se para a janela sem cortinas que dava para Rua Augusta. Ela gritou em desespero. E eu gritei em um desespero ainda maior e saí correndo pela porta que ela havia esquecido de fechar. Quando cheguei lá embaixo, tudo que pude ver foi ela caída de barriga na rua. Eu cheguei perto dela, muito perto, e pude ver seu rosto seco, sem nenhuma lágrima. Ela não havia chorado. Já era meia-noite, mas ela não chorava. Ela me olhou uma última vez com os olhos de quem precisava de muito, muito mais. Um passarinho pousou ao seu lado e ela sussurrou suas últimas palavras:
- Voa. Voa alto, porque eu acho lindo te ver livre.
Eu passei a noite sem dormir, sentado ao lado do seu corpo frio. E logo nos primeiros dois minutos, eu pude ter apenas uma certeza. Certeza de que o próximo a cair de barriga na Rua Augusta, seria eu.
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo se equilibra,
no mesmo ventre crescido,
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia."
(Morte e vida severina - João Cabral de Melo Neto)
Nós morávamos em um apartamento de poucos quartos, na esquina da Rua Augusta. Eu, ela, e mais cinco pessoas. Mas esse número mudava com freqüência. Alguns desistiam, uns achavam um lugar melhor e outros simplesmente desapareciam e não voltavam nunca mais. Além disso, muitos outros chegavam a cada dia que passava. Sempre éramos obrigados a chamar mais pessoas para morar com a gente, pois era cada vez mais difícil manter o aluguel em dia, então precisávamos de ajuda. Eu não gostava de convidar outras pessoas, era praticamente como convidar alguém para morrer ao nosso lado, mas era inquestionável que precisávamos. Ah, que precisávamos de ajuda era algo óbvio. Era só olhar nossas unhas roídas pela ansiedade, nossas olheiras denunciando as insônias e a cara fodida de cada um de nós. Precisávamos de um psiquiatra, um psicanalista ou qualquer coisa que nos explicasse como tínhamos chegado a tal ponto. Nos poucos dias que conseguíamos dormir, acordávamos ao nascer do sol pra contemplar o nada em nossas vidas. E também porque não havia cortinas em nenhuma das janelas e o sol logo invadia nossas pálpebras, de um jeito que se tornava impossível agüentar e continuar dormindo. Na verdade, tínhamos chegado a um ponto em que não podíamos agüentar mais nada. E além desse nada e do sol, ainda fazia um frio danado, que fazia com que nós sempre acabássemos transando uns com os outros só para nos esquentar. Mas o sexo não mudava o fato do frio crescer lá fora e dentro de cada um de nós. A vida era um inverno incontrolável. Mas apesar das unhas roídas, das olheiras, da nossa cara fodida, do sol nas pálpebras, do frio crescendo dentro de nós, eu acordava ou via o sol nascendo sempre com uma esperança de que algo poderia mudar. Essa era a única coisa bonita que eu via naquele apartamento: minha esperança. Era incrível que ainda me restasse alguma força para continuar sobrevivendo. Acho que eu era o único que ainda não tinha pensado em suicídio. Todos tinham um pouco de esperança guardado em baixo das pálpebras, mas de tempos em tempos nem isso era suficiente. Era aí que aconteciam os suicídios. De tempos em tempos um de nós se suicidava. Atirava-se pela janela sem cortinas, sentia o sol em suas pálpebras e lembrava-se uma última vez que era impossível agüentar aquele sol nos olhos. Alguns centímetros antes do chão, ainda sentia o frio da cidade. E por último caía de barriga na Rua Augusta.
Era sábado à noite quando aconteceu. Fazia exatamente três meses que nenhum de nós desaparecia ou atirava-se pela janela sem cortinas, e eu estava quase começando a acreditar em eternidade. Estávamos quase todos em casa, porque estávamos fodidos demais, sem dinheiro demais, para sair de noite. Pensamos em procurar um bar e algum dinheiro para beber alguma coisa, brindar a pouca esperança que ainda insistia em permanecer atrás dos nossos olhos, da nossa tristeza, atrás de toda aquela coisa que eu chamava de sobrevivência. Pensamos em sair para tentar achar algo que valesse mais a pena, mas estávamos tristes demais. Estávamos sempre tristes demais, e chorávamos todos os dias por volta das três horas da tarde, e depois de novo à meia-noite. Mas o choro da meia-noite era diferente, acho que era mais um choro de felicidade, se é que isso era possível naquele ponto, por saber que mais um dia se passou sem que fossemos os próximos a se suicidar. Chorávamos todos, mesmo os que tinham recém chegado. A única que não chorava era Ana. E de certa forma ela sempre nos trouxe uma esperança, não sei se por não chorar, mas, talvez, porque víamos nela uma imagem um pouco menos triste. Pelo menos era o que eu achava, mas ao mesmo tempo me vinha uma idéia estranha, de que talvez ela fosse a mais triste de nós e não tivesse mais o que chorar. Como se suas lágrimas não sustentassem sua tristeza. Como se dentro dela houvesse apenas um deserto, seco e cru. E, talvez, essa melancolia guardada atrás dos seus olhos que tentavam chorar e não podiam, nos desse um tipo de esperança por saber que nenhum de nós outros havia chegado ao mesmo ponto que ela.
Naquela noite meu colega estava ao meu lado em plena bad trip, e eu estava sentado no chão, porque não havia poltronas. Eu estava ali sentado pensando que já fazia três meses que ninguém havia desaparecido, nem cometido suicídio, enquanto temtava me concentrar em um livro que eu havia roubado em uma livraria pequena ali na outra esquina. Mas não podia disfarçar que a única coisa em que eu podia me concentrar era aquela janela sem cortinas que mostravam as luzes brilhando do outro lado da Rua Augusta. Eu queria saber quem seria o próximo. E tinha quase toda certeza de que o cara que estava totalmente alucinado ao meu lado iria sair correndo, daqui a pouco, e se atirar na Rua Augusta. Ana havia saído para tentar achar uma dose. Sempre que ela saía, eu ficava meio perdido, ou mais perdido que o normal. Pois perdido eu sempre estava, assim como todos os outros que estavam ali. Quando ela estava em casa eu passava horas olhando para os seus cabelos negros. E às três da tarde enquanto eu chorava, ela ficava observando minhas lágrimas caindo no chão de madeira. Eu tentei me concentrar novamente no livro que eu tentava ler, quando Ana entrou correndo com seus cabelos negros balançando de acordo com o vento que entrava da janela, quase arrombando a porta e gritou:
- Estou presa!
Levantei meus olhos do livro para observá-la, mas logo baixei novamente, porque imaginei que ela tivesse achado a tal dose, cheirado tudo, e aquilo fosse só mais uma de suas viagens estranhas. Mas então ela repetiu, dessa vez quase sussurrando, e eu achei estranho pois ela não costumava sussurrar:
- Estou presa.
Eu levantei meus olhos de novo, e vi como nenhuma das outras pessoas que estavam ali haviam se mexido e como nenhuma parecia se importar. Ninguém naquele apartamento costumava conversar, principalmente porque havíamos chegado a tal ponto em que não conseguíamos mais que alguma coisa que disséssemos fizesse sentido. Mas Ana era diferente, e eu sabia que de alguma forma ela devia ter pensado muito, antes de arrombar a porta e entrar gritando. Talvez fosse por isso que ela não chorava, pois ela tinha algo no que pensar. Todos outros já haviam aceitado a ausência, inclusive eu. Já havíamos aceitado o fato de não ter nada na vida, nem algo no que pensar. Mas Ana não. Ela saía todos os dias e voltava com histórias pra contar, mesmo que nenhum de nós falasse nada, ela continuava a contar suas histórias. Eu me importava com ela, e talvez por isso não houvesse pensado em suicídio, e acho que ela também não. Eu tinha a ela, e ela tinha suas histórias e pensamentos. Mas nenhum de nós tinha tempo para o amor, pois gastávamos todo nosso tempo procurando forças pra manter nossa esperança viva. Ana se aproximou de mim. Segurou muito firme em minhas mãos e me olhou nos olhos, de um jeito que nunca tinha olhado, até porque nenhum de nós tinha tempo ou capacidade para amar. Mas naquele momento ela me olhou, e mesmo que não fosse meia-noite, mesmo que não fosse hora de chorar, eu não pude conter minhas lágrimas. E ela me olhou do jeito que sempre olhava quando eu derramava minhas lágrimas as três da tarde, e olhando assim com um jeito de quem necessita amar, ela me disse:
- Estou presa, estou presa sim. Não venha me dizer que não. Esse coração miserável, essa paixão esgotada por qualquer coisa, essas cinzas que se queimaram e não renascem nunca. Estou presa nessa melancolia, nessas besteiras, nessa merda toda. É, essa merda toda.
Recorreu os olhos pra dentro daquele apartamento minúsculo procurando alguém com um olhar que dissesse que isso ia passar. Não encontrou ninguém. Não havia nada ali. E ela presa naquela coisa que não sabia mais o que era:
- Não há nada aqui, só a fome de todos os dias, o vazio imenso do meu ser, e o pretérito perfeito dos meus amores.
Ela tentou chorar, baixou a cabeça, sentou ao meu lado e pousou seu rosto no meio dos joelhos, mas o deserto que ela tinha dentro do seu peito não lhe dava lágrimas. Ela não chorava. E eu tentei dizer que tudo ia passar, mas eu não sabia mais como falar coisas bonitas. Tudo que me restava era ver Ana falar. E ela continuou:
- Você sente isso também? Você sabe o que é isso? Não ter nada na vida e mesmo assim se sentir presa a alguma coisa? Presa ao nada? Precisamos de muito mais que isso. Precisamos de muito mais, precisamos deixar sangrar. Precisamos de algo além dessas vírgulas e reticências, algo um pouco além dessas vidas tão usuais. Precisamos falar, mostrar, fingir, agir-como-se alguma coisa importasse além da fumaça, do cigarro e do uísque no fim do dia. Eu não quero mais saber de me encontrar ou de me auto-entender. Que seja sobre destino então, que seja sem razão, que se assim tenho de me perder, que não sobre mais nada e que meus olhos fiquem pra sempre procurando algum rosto que me tire daqui. Em um desespero que vou poder pra sempre chamar de meu.
Não, Ana, eu não sinto isso, não sinto mais nada. Tentei dizer que cheguei a tal ponto que a única coisa que eu tinha era a vontade de ouvir suas histórias, enquanto procurava um tempo para conseguir amar. Não, Ana, não estou preso, já me livrei de toda fé. Pensei em dizer, mas não fui capaz, não sabia mais dizer o que eu sentia. Não sabia mais declarar que ela era a única pessoa que alimentava minhas esperanças de continuar sobrevivendo. Não, Ana, já faz tempo que não sinto nada. Ela levantou o rosto dos joelhos me olhou de novo com os olhos de quem não está em liberdade, com olhos de quem acredita em algo no que não deveria se ter fé, e me disse uma última vez:
- Estou presa.
O cara do meu lado se levantou, entrou em um quarto qualquer e caiu dormindo no chão. Ele não era o próximo. Mas novamente, o próximo suicídio estava ao meu lado. Ana se levantou tão rápido que meus olhos quase não puderam acompanhar o seu corpo dirigindo-se para a janela sem cortinas que dava para Rua Augusta. Ela gritou em desespero. E eu gritei em um desespero ainda maior e saí correndo pela porta que ela havia esquecido de fechar. Quando cheguei lá embaixo, tudo que pude ver foi ela caída de barriga na rua. Eu cheguei perto dela, muito perto, e pude ver seu rosto seco, sem nenhuma lágrima. Ela não havia chorado. Já era meia-noite, mas ela não chorava. Ela me olhou uma última vez com os olhos de quem precisava de muito, muito mais. Um passarinho pousou ao seu lado e ela sussurrou suas últimas palavras:
- Voa. Voa alto, porque eu acho lindo te ver livre.
Eu passei a noite sem dormir, sentado ao lado do seu corpo frio. E logo nos primeiros dois minutos, eu pude ter apenas uma certeza. Certeza de que o próximo a cair de barriga na Rua Augusta, seria eu.
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