quarta-feira, 21 de maio de 2008
O amor é uma tragédia.
Meus dedos encostaram nos teus como se aquilo fosse um acidente premeditado. Acidente porque nós já havíamos tentado amar uma vez e sabíamos que seria impossível que tivesse nos sobrado alguma força para tentar de novo. Sabíamos do erro, da imprecisão, sabíamos que não deveria ser. Acho que se fossemos comparar, meu amor foi maior que o teu, minha entrega foi o dobro da tua. Mas agora não importava o tamanho do amor que cercava cada um de nós. Agora era simplesmente meus dedos encostando os teus, sem importar quem de nós tinha dado o primeiro passo. Acho que se fossemos analisar, seria assim: eu conseguia amar, mas não queria; você queria, queria desesperadamente, mas não podia, não conseguia. Mas agora não importava mais a calma ou o desespero. Era simplesmente um acidente que meus dedos tivessem tocado os teus, sem importar a hora exata ou a capacidade de amar dentro de nós. Mas não deixava de ser premeditado, pois eu pousei de leve a minha mão em cima da mesa querendo te tocar, e você imitou meu movimento querendo me tocar. E nossos dedos foram se aproximando aos poucos, enquanto as horas se mexiam. E nenhum dos braços se contraiu, tentando frear o acidente. Nenhuma palavra de perdão saiu de nossas bocas, tentando disfarçar a vontade de tocar. Nada aconteceu para fingir que aquilo não era uma escolha. Nossos dedos não se encolheram de leve quando se tocaram. E aquilo foi simplesmente acontecendo, sem que nenhum de nós parasse para teorizar o que poderia acontecer no instante seguinte. Como um carro beirando um penhasco sem que o motorista tire o pé do acelerador. Enfim, meus dedos tocaram os teus, ou seus dedos tocaram os meus, em um gesto leve e delicado e ao mesmo tempo de forma tão brusca que eu não poderia mais dizer se havia sido apenas um toque ou o presságio de uma tragédia que viria logo a seguir. E bateu em mim, e acredito que em ti também, uma lufada de sentimentos tão firme, tão forte, daquelas de dilacerar o mais puro coração. Mas sendo um toque, uma tragédia ou, até, talvez, uma nova tentativa de amar, de um jeito ou de outro nossos dedos se tocaram. E eu levantei minha cabeça e, novamente, você imitou meu movimento e dessa vez foram nossos olhos que se tocaram. E eu, em meio ao desespero, não podia dizer se aqueles olhos que miravam os meus guardavam rancor ou esperança. Não podia dizer se era tristeza pela primeira tentativa que falhou, ou se era felicidade pelo que aquele movimento inicial, de botar a mão mesa, guardava. Não podia dizer se aqueles dedos que tocavam os meus, querendo e não querendo tocar, guardavam receio ou vontade. E também não saberia dizer se aquele sentimento que se instalava em mim era leve ou pesado, bom ou ruim, ódio ou amor. E àquela altura eu não sabia mais que sentimento eu queria dentro de mim e nem sabia mais o que era certo ou errado. Não queria amar, não queria odiar, não queria nada a não ser ficar olhando seus olhos em um quase-ódio, em um quase-amor, enquanto meus dedos tocavam os teus em um movimento leve e delicado, ou em um movimento firme e forte, capaz de dilacerar o meu e o seu coração. E ficamos em silêncio com os dedos encostados e os corações dilacerados. Ficamos em silêncio em um desespero de voltar a tentar, de voltar a amar. Ficamos em silêncio, pois sabíamos que se um de nós falasse alguma coisa teríamos que teorizar aquele toque, aqueles olhos se olhando em um quase-amor, em um quase-ódio de não saber o próximo passo. Sabíamos que se começássemos a falar teríamos que teorizar vontades, mas não queríamos e nem podíamos. E por mais que fosse apenas um pequeno toque sabíamos que aquilo era grande demais para não significar nada. Mas ficamos em silêncio. E eu esperava que de alguma forma aquele acidente, aqueles olhares cruzados, virassem logo uma tragédia. E que aos poucos meus olhos fossem se fechando e seu corpo fosse se movendo para cima do meu corpo, e nossos lábios fossem se encostando, e aquela tragédia fosse se encaminhando, levemente, para tornar-se realidade. Eu queria chegar ao ponto em que eu fosse aquele motorista do carro, beirando ao abismo, que tenta frear no último momento, mas aí já é tarde, a tragédia está feita, o carro está caindo e nossos lábios estão se encostando. E nesse momento eu ouviria um pequeno estalo na minha cabeça que diria que enfim aquele acidente virou tragédia, e não só nossos dedos e olhares se tocavam, mas sim nossos corpos, nossos corações dilacerados, pelo toque inicial. E o estalo me lembraria da incapacidade que eu teria de me guiar a partir daí. Pois faltava teoria dentro de mim, e eu precisava que algo me explicasse o que era aquele toque. E por não saber explicar, fiquei em silêncio, esperando que você desse o primeiro passo, e ao mesmo tempo, sem querer que aquele instante chegasse a um fim. Você piscou os olhos, e nosso olhar se quebrou. E eu pensei que talvez aquele fosse o próximo passo. Pensei que talvez fosse apenas isso. Nossos dedos se encostaram e o próximo passo era nada. Eu tinha duas possibilidades em minhas mãos, e você fazia questão de encostar na ponta dos dedos onde elas estavam. E minha vontade era de dizer me perdoe, por favor, mas será que você pode segurar firme em minha mão, e depois ir soltando aos poucos para eu ver se uma das possibilidades cai no chão, e talvez, assim a outra fique estática grudada em mim, e aí já está escolhido. Pois meu coração está dilacerado, querida, meus olhos não suportam mais te olhar e meu braço está inquieto desde que seus dedos encostaram os meus. E talvez, eu tenha chegado a dizer, mas estava tão concentrada no meu pânico de te-tocar-ou-não que não soube se disse tudo isso ou só pensei em dizer. Mas sei que seu braço foi se mexendo e seus dedos deixando de encostar os meus e passando aos poucos pelas minhas articulações até chegar à palma de minha mão, e continuo subindo ou descendo até meu pulso, onde me segurou como quem segura um punhal e foi me puxando por cima da mesa, por cima do seu corpo, por cima do meu pânico, até eu estar estendida, estática, em cima de você, sentindo o seu coração que batia tão forte, tão firme. E você botou a mão em meu peito, olhando nos meus olhos, como se procurasse um batimento, mas não sei se corações dilacerados costumam bater, e já havia tempo que eu não parava para sentir meu coração pulsando dentro de mim. E você foi se aproximando, e segurou meu outro pulso, enquanto eu continuava a sentir o pulsar do seu peito e a pensar se corações dilacerados batem ou não. E você foi se aproximando como eu tanto imaginei. E veio a minha cabeça a vontade de sair correndo, pois não tinha mais forças para amar. Mas quando me dei conta disso, e tentei frear, já era tarde demais. O carro caía penhasco a baixo e meus lábios estavam próximos demais dos teus. E eu ouvi no fundo da minha cabeça um estalo sinalizando a tragédia. E pensei que talvez sim. Pensei que se sobrou força pra você me puxar pelo pulso, se sobrou vontade para eu me deixar levar, pensei que sim, que ainda haveria uma possibilidade de amar. Ouvi de novo o estalo, e senti meu coração dilacerado batendo aos poucos. E pensei novamente que sim: corações dilacerados batem, e batem forte. E teorizando assim, que meu peito ainda pulsava, fechando os olhos, quebrando o olhar, permitindo que você me puxasse para mais perto ainda, me entreguei, enfim, àquela tragédia.
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4 comentários:
Incrível como um momento tão curto pôde se transformar em tantas palavras. Começei a ler e não me contive, fui até o fim.
Gostei muito daqui, vou colocá-la nos meus favoritos, se não se importar.
Se quiser conferir: http://silenciocoletivo.blogspot.com
estava preocupada se a tragédia não se ia fazer logo. ás vezes, ela é necessária.
prazer em lê-la.
(www.semasas.blogger.com.br)
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