Ainda não era agosto, embora, dentro dele, quase sempre fosse essa época de desgosto. Mas fora dele ainda não. E a noite naquela cidade ia caindo aos poucos em ritmo de samba. Ele se levantou do sofá e caminhou lentamente em direção à janela para admirar as luzes das salas de estar de seus vizinhos que iam se apagando, enquanto todo mundo arrumava-se para sair de casa. Algumas continuavam acesas e ele pensou em gritar para estes que ainda não era agosto e a noite ia caindo em ritmo de samba. Depois repetiu para si mesmo essas mesmas palavras que pensou em gritar. Repetiu baixinho ao pé de seu próprio ouvido, enquanto servia duas taças de vinho: uma para ele e outra para ninguém.
Sentou-se na cadeira na ponta da mesa nova que ele havia comprado recentemente. Era de alguma madeira cara importada de algum país da Europa. Pensou nos dias inteiros de trabalho doados àquela empresa recentemente privatizada pelo governo, e pensou se valia a pena tanto esforço pra dividir a recompensa com apenas uma taça de vinho e ninguém para segurá-la. Lembrou-se de Fernando Pessoa e as lágrimas de Portugal. E disse a si mesmo que sua alma devia ser pequena demais, então, já que há muito tempo sentia sua vida acabar toda vez que lavava o rosto de manhã. Estendeu a mão e brindou sua taça com a taça de vinho apoiada na mesa. A taça tombou e o vinho tinto foi caindo como sangue e, por um momento, ele desejou que aquele sangue derramado fosse dele. Pensou em só se preocupar com isso amanhã, quando agosto chegasse.Acendeu um cigarro e sentiu uma azia que ele não tinha certeza se era pelo vinho ou pelo mal-estar que já fazia parte do seu corpo. É o vinho. E serviu um pouco mais em sua taça, e um pouco mais na taça de ninguém. Por um breve momento, em que a consciência resolveu falar com ele, depois de tanto tempo sem dar as caras, ele achou que estava louco, servindo vinho pra ninguém e sussurrando sambas em seu próprio ouvido. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de solidão. Deteve-se no pensamento sobre a solidão por algum tempo. Deteve-se dentro de si mesmo, do mesmo jeito que alguém que ama detém-se nos olhos da pessoa amada.
So-li-dão.
Repetiu a palavra em sussurros separando bem as sílabas como quem divide um texto tentando entendê-lo melhor, com um cigarro aceso entre seus dedos, e duas taças de vinho em sua frente. Estado de quem está só. E tentando se confortar gritou bem alto perguntando pra ninguém ouvir, afinal, quem não está sozinho? Algumas pessoas disfarçam melhor. Ele já havia cansado de disfarces e moveu sua mão até seu rosto sem nenhuma máscara com marcas de tristeza estampadas por todo seu semblante, que iam ficando mais fortes de acordo com o tempo.Contornou os traços do seu próprio rosto com os dedos. Nunca havia feito isso antes, e foi descendo pelo seu pescoço, passando para o peito, onde parou de repente pra tentar escutar seu próprio coração. Com os dedos esticados contornou seu corpo inteiro delicadamente, como se guardasse um certo receio de si mesmo. Achando que se seus dedos tocassem sua pele com um pouco mais de vigor, ele se quebraria em pedaços. Sim, estou frágil, pensou. E então, com toda delicadeza contornou seu corpo como quem faz um desenho no ar, ou como quem toca em um corpo nu pela primeira vez. E concluiu sua nudez por trás de seu silêncio. Mas um silêncio que não era ausência de palavras, era simplesmente a ausência de máscaras. Era uma nudez, um silêncio, deixando transparecer qualquer segredo. Era seu pensamento querendo alguém para decifrar a sua simplicidade pela falta de disfarces Era a fala engasgada demonstrando a angústia estampada no calendário que marcava dia 31 de Julho. E ele pensou que talvez estivesse louco, contornando o próprio corpo e sentindo angustia só por olhar o calendário. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de desespero. Tentou se recompor, disse a si mesmo que não se desesperasse. Levantou-se fechando o casaco que havia aberto para poder contornar o próprio peito. Apagou o cigarro e disse a si mesmo que precisava de mais vinho.Dirigiu-se até a geladeira, tropeçando em seus próprios pés pelo vinho que já fazia efeito em sua cabeça. No meio do caminho olhou de relance para o espelho do banheiro, mas desviou o olhar. É preciso muita coragem pra se mirar no espelho em uma véspera de agosto, pensou. E seguiu em frente querendo esquecer o pequeno olhar que o espelho refletiu. Depois concluiu que era impossível esquecer alguns olhares, principalmente aqueles tristes, e mais ainda, seu próprio olhar refletido no espelho. As pálpebras se fechando, por razões que ele ainda não sabia se era sono ou tristeza, ou as duas coisas. Um brilho de leve fingindo que ainda acreditava em esperança, ou então, talvez fosse só a água em seus olhos que se preparava para escorrer pelo seu rosto. Mentiu, por fim, a si mesmo, dizendo que deviam ser lágrimas de esperança, e piscou os olhos deixando a lágrima cair, sem saber exatamente o verdadeiro motivo de porque aquela água rolava pelo seu rosto. Tentando entender, resolveu se encarar no espelho. Adiou um pouco ainda o encontro consigo mesmo, abriu a porta da geladeira e só achou meia garrafa de vodka. E a essa altura tudo bem. Pegou mais dois copos, e serviu um pouco em cada um, e brindou mais uma vez com alguém que não estava ali. Aproximou-se do espelho, encostou os dois copos na pia, e passou de leve suas mãos pelo mármore, ainda de cabeça baixa. Suspirou fundo, pronto pra se encarar. Ergueu devagar a cabeça. Mirou os seus próprios olhos na fronteira de seu olhar. Admirou seu rosto com feridas consagradas de invernos que passaram. E pensou que antes não era assim. Não sabia exatamente antes do que ou de quem. Mas afirmou assim meio perdido apenas antes. Via seu rosto menos triste antigamente. Antigamente quando? Não sabia direito. Mas não tinha essas feridas em sua boca, nem essas marcas de noites sem dormir, muito menos esse caráter cansado em seus olhos de quem viveu demais mesmo sem viver nada. Vivendo muito em tão pouco. Como se cada detalhe de alguma coisa que dá errado lhe custasse um pouco de sua vida. Mas claro que todo mundo cansa, pensou. Claro que chega uma hora em que é preciso estar cansado, deitar sozinho de madrugada e chorar baixinho, sem querer alguém pra lhe consolar. Mas, pra grande parte das pessoas, esse estar cansado viria seguido da palavra ‘eventualmente’ ou ‘às vezes’ ou em alguns casos até um ‘raramente’. Mas, então, será que tudo bem esse estar cansado ser meu estado natural?
As palavras vagavam pela sua cabeça e, às vezes, quando ele se distraía, elas saíam ardendo de sua boca e se perdiam pelo apartamento vazio. Bebeu mais. Acendeu outro cigarro e de repente viu seu rosto perdendo a forma no espelho, as linhas foram perdendo a intensidade e desaparecendo. E quando seu reflexo desapareceu totalmente, ele achou que talvez estivesse morto e sentiu de perto o frio. Mas depois pensou que devia ser só agosto anunciando sua chegada em diferentes formas de morte.Caminhou letamente até a janela novamente. Tragou o cigarro e suspirou, soltando a fumaça, dando uma espécie de boas-vindas àquele mês que estava chegando. Mas depois se questionou dizendo que, na verdade, era como se agosto estivesse ali, do seu lado, naquele instante, e o tempo inteiro que havia passado. Ele servira vinho pra dividir com aquele mês de desgosto. E até tinha admirado o sangue de agosto escorrer derramado de cima de sua mesa nova. Olhara agosto refletido ao seu lado no espelho. E sentia toda hora. Chegando cada vez mais perto. Até que percebeu que aqueles sintomas não eram mais anúncios de chegada. Agosto havia chegado, trazendo uma espécie de loucura, de desespero, de solidão, uma espécie de morte e um lamento que ele sabia que ia durar mais trinta dias. Dirigiu seus olhos para o lado de fora e olhou o primeiro dia de agosto que aterrisava aos poucos em cada centímetro daquela cidade. Sim, pensou, agosto finalmente havia chegado pra lhe fazer companhia. E agora sim, ele sentia em cada pedaço de seu corpo, que ele havia contornado com tanto cuidado, feridas consagradas de invernos passados. Passou a mão nas feridas com o espanto de quem vê a dor pela primeira vez. Levantou a cabeça e viu uma estrela passando no céu. Esticou a mão cheia de feridas abertas, segurou firme e trouxe a estrela pra bem perto de si. Lembrou que sempre lhe diziam que quando as estrelas passam correndo deve-se fazer um pedido. Olhou a estrela bem de perto com os olhos ofuscados de tanto brilho, e disse baixinho:- Faz agosto passar depressa.A estrela sorriu. Disse que não podia mexer nas horas. E o tempo passa sempre no mesmo compasso. Mas olhando bem dentro dos olhos dele, ela prometeu que mais cedo ou mais tarde iria passar. Ele sorriu aliviado. Soltou a estrela, mas ela continuo em sua mão por algum tempo, e depois foi se dirigindo lentamente até ficar lado a lado com seu rosto, no qual se deteve brevemente. Naquele rosto de tristezas estampadas pelo tempo. Ele continuou olhando pra frente, estático admirando todas estrelas no céu, até que ouviu uma canção declamada baixinho em seu ouvido. Olhou para o lado e viu a estrela ali cantando. Era quase um samba. Ela repetia várias vezes de forma tão delicada que ficava fácil acreditar:- Agosto vai passar, agosto vai passar…
Ele olhou de novo pro céu e viu mil estrelas pulsando em solidão lá em cima, enquanto seu coração pulsava aliviado lá embaixo. Ele sorriu e agarrou novamente a estrela, botando-a bem perto de seu peito como quem aceita o tempo de cada coisa. Fechou os olhos e cantou junto com a estrela aquele quase-samba e se permitiu acreditar. Acreditar que atrás da loucura, da solidão, do desespero, e atrás até da morte, sempre vai existir uma estrela cantando esperanças. Agosto vai passar… Sim, agosto vai passar…
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
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1 comentários:
Não sei se é pelo fato de eu me identificar muito com a situação, ou se é só pela sua narrativa, que é genial. Eu só sei que não consigo me aprofundar no meu comentário.
Gosto muito dos teus textos.
Até.
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